O que a Bíblia diz sobre Identidade?
- ICE JG
- há 2 dias
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O tema da identidade de uma pessoa — e o desejo de alguns de mudá-la — tornou-se popular e controverso. Mas não é novo. Em Infância e Sociedade (1950), Erik Erikson examinou e mapeou o desenvolvimento pessoal do ser humano ao longo da vida, incluindo como lidamos com nossa “identidade”. Ele também cunhou o termo “crise de identidade”, que definiu como um período de intensa análise e exploração de diferentes maneiras de enxergar a si mesmo. Erikson postulou que a identidade se desloca e se transforma ao longo da vida, à medida que as pessoas enfrentam novos desafios e lidam com diferentes experiências.
Parece que a era das redes sociais inaugurou um foco totalmente novo em imagem, popularidade e, sim, na busca por identidade. Não é que essa preocupação com a autoimagem não existisse antes, mas é claro que as redes sociais aceleraram a propensão humana a se concentrar em encontrar ou estabelecer a própria “identidade”, chegando até ao ponto de alguns se identificarem com um gênero diferente daquele com o qual nasceram.
Então, como nós, como crentes, lidamos com essas questões quando elas surgem no trabalho, na escola, entre amigos e até na família? O que Deus diz, afinal, sobre a necessidade de uma identidade? Fiz uma rápida busca nas Escrituras pela palavra “identidade” e termos relacionados. Foi uma busca curta. As palavras “identidade”, “identificar”, “identificação” não aparecem. A Bíblia, porém, nos lembra de todos os benefícios concedidos àqueles que aceitaram Jesus como seu Salvador. Por exemplo: somos filhos de Deus (Romanos 8:16), tendo sido adotados em Sua família (Romanos 8:15); temos uma herança (Colossenses 3:24); temos a vida eterna (João 3:16); Deus nos ama (1 João 4:10–11), a ponto inclusive de disciplinar Seus filhos quando necessário (Hebreus 12:7); somos cidadãos do céu (Filipenses 3:20–21); somos perdoados (Efésios 1:7), e há muitos outros.
Essas são verdades extraordinárias das quais você provavelmente tomou consciência logo no início da sua vida cristã, e poderíamos considerar que ser filho de Deus faz parte da nossa identidade como cristãos. Temos uma grande família de irmãos e irmãs. Mas Deus não nos lembra dessas coisas para que pensemos em quão grandiosos somos, ou quão únicos ou importantes. Na verdade, é exatamente o oposto. Esses benefícios maravilhosos de sermos filhos de Deus nos lembram de como Ele nos resgatou do caminho que seguíamos, não porque merecíamos, mas por causa de Sua grande graça, misericórdia e amor:
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8–9)
E a nossa resposta natural a esses dons da graça de Deus deve ser amá-Lo e servi-Lo, bem como aos outros, por gratidão. Efésios 2:10, que vem imediatamente após a declaração da salvação nos versículos 8 e 9, nos lembra que “pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”.
Por exemplo, quando crianças crescem em uma família real, elas não precisam ser constantemente lembradas de todos os benefícios que têm por serem da realeza. Quando chegam à idade suficiente, isso já é algo que compreendem com facilidade. Em vez disso, a ênfase passa a ser em como agir como filho do rei ou da rainha. Da mesma forma, nós, como cristãos, não precisamos gastar muito tempo pensando em quem somos em Cristo. A parte difícil é viver de maneira justa na terra à luz de quem somos e do que o Pai fez por nós. Em outras palavras, o foco não está em compreender a nossa identidade em si, mas em viver uma vida coerente com o fato de sermos filhos de Deus.
Os discípulos provavelmente pensavam que fazer parte do “círculo íntimo” de Jesus devia ser algo muito especial. Sabemos disso porque surgiu uma discussão sobre qual deles era o maior (Lucas 22:24). Jesus respondeu:
“Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor, e quem governa como quem serve.” (Lucas 22:25–26)
Jesus continuou dizendo: “Mas eu estou entre vós como aquele que serve.” Os discípulos pareciam ter se esquecido do que Jesus lhes ensinara anteriormente: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (Lucas 9:23–24).
Somos tão parecidos com os discípulos, não somos? Somos tentados a nos preocupar demais com status, com a percepção que os outros têm de nós, com a imagem que apresentamos, com a identidade que possuímos. Jesus estava basicamente dizendo que não precisamos nos preocupar com a nossa identidade. O que os outros pensam de nós se resolverá por si mesmo. Não é sua tarefa controlar o que as pessoas pensam a seu respeito nem atender às expectativas que elas têm sobre quem você deveria ser. Apenas mantenha-se ocupado vivendo a sua vida em Cristo, amando e servindo a Deus e aos outros onde quer que você esteja. Deus nos chamou para demonstrar amor, cuidado e bondade a todos, mas isso não é um concurso de popularidade. Essa é uma verdade tão simples, mas tão revolucionária no mundo de hoje. É definitivamente contracultural. Mas é o caminho para a verdadeira paz e alegria, em vez da paz e alegria transitórias que dependem da opinião dos outros. Como Jesus disse, é o caminho para “salvar a sua vida”.
Então, o que fazer se a atenção vier até você? Aceite-a com graça. E se ela não vier, reconheça que o nosso Pai é a audiência suprema. Muitos cristãos hoje, e ao longo dos séculos, serviram ao Senhor na obscuridade. Seus atos de serviço e sacrifício talvez nunca sejam conhecidos, exceto pelo Senhor. E tudo bem assim. Um show de prêmios para a abnegação não é necessário, embora devamos honrar aqueles que servem fielmente em diversas funções. Humildade autêntica não inclui usar um botão escrito “Humilde”.
Erik Erikson provavelmente captou com bastante precisão a nossa humanidade ao afirmar que todos somos inclinados a buscar nossa identidade, a ser aceitos, a ser vistos favoravelmente pelos outros e até a ser famosos. O fato de termos essas inclinações não as torna corretas nem algo que devamos perseguir.
Então, o que fazemos diante das tendências que vemos hoje, com a hiperênfase na identidade? O que fazemos quando outros perguntam qual pronome preferimos usar? Ou como nos dirigimos a alguém que assumiu um gênero que sabemos não ser o seu de nascimento? Essas podem ser perguntas difíceis e constrangedoras. Por um lado, o simples fato de essas questões surgirem confirma a espiral descendente da sociedade e o que acontece quando nós, seres humanos, “seguimos nossos instintos”. Isso é trágico, mas não deveria nos surpreender. Vemos esse ciclo se repetir inúmeras vezes nas Escrituras. Apenas está mais potencializado agora pela tecnologia. Aqui estão algumas sugestões de como aplicar esses princípios:
Reconheça que o incrédulo (o “homem natural”) “não aceita as coisas do Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:14). Portanto, não devemos nos surpreender quando as pessoas estão absorvidas em si mesmas e em sua busca por identidade. No trabalho, na escola e no mercado, devem ser tratadas com amor e respeito como qualquer outra pessoa. Somente pela graça e misericórdia de Deus fomos poupados de seguir um caminho semelhante.
Lembre-se de que não podemos controlar as escolhas dos outros, mas é bom ter uma resposta preparada caso algum dos temas “modernos” sobre identidade venha à tona — talvez algo como: “Estou muito contente com a forma como Deus me fez” (1 Coríntios 7:20; Filipenses 4:11). Provavelmente não é o melhor caminho entrar em debates sobre as escolhas que outros fizeram, a menos que isso possa, de alguma forma, conduzir ao evangelho. Podemos demonstrar respeito e amor sem precisar concordar com as escolhas que fazem.
Ensine seus filhos desde cedo que eles não são o centro do universo. Há muitas maneiras práticas de ensiná-los a servir, desde tarefas domésticas até o cuidado com pessoas necessitadas, dentro ou fora da igreja.
Ajude seus filhos a controlar o impacto das redes sociais em suas vidas. Isso é difícil, especialmente quando tantos amigos deles estão nelas. Mas até estudos seculares têm mostrado o quão viciantes e destrutivas as redes sociais podem ser. Na verdade, não é a mídia em si, mas como ela nos permite colocar mais foco em nós mesmos, nas impressões que queremos causar e na nossa identidade. Elas são ótimas para acompanhar notícias da família e podem até ser uma plataforma para encorajar e orar por outros. Mas é fácil, especialmente para a geração mais jovem, ser envolvida pela competição por popularidade e imagem.
Alguns de nós crescemos ouvindo o ditado: “Palavras não quebram ossos”. Em termos espirituais, o que os outros pensam de nós, embora às vezes possa ser decepcionante, jamais pode tirar a paz e a alegria que temos em nosso relacionamento com Cristo. Lembre-se apenas de que Jesus disse estas palavras pouco antes de ir para a cruz, sabendo dos abusos que estava prestes a enfrentar:
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (João 14:27)
O foco d’Ele, mesmo então, não estava em Sua identidade ou no que os outros pensavam d’Ele. Seu foco estava em Sua missão e na edificação dos outros. Lembre-se também de que nunca é tarde para mudar o foco. A imagem do apóstolo Paulo diante da igreja logo após sua conversão não era boa. Todos estavam desconfiados se ele realmente havia mudado ou se era um impostor. Mas Paulo, por meio de sua demonstração abnegada de fé, amor e sacrifício, tornou-se amado e acolhido pelos crentes daquela época (e também criou novos inimigos). Em 1 Coríntios 15:9, ele reconhece que “não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus”. E no versículo 10 ele declara: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou…”. Assim também somos nós. Indignos, mas gratos. Que esses lembretes, e a paz que Jesus promete, sejam nosso conforto, quer o mundo pense bem de nós ou não.
Steve Smith



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